Desculpe noite
Estou aqui para me sujar de branco
Por isso estou segurando o tranco
Oh! tempo, aonde você vai
Vou até daqui a pouco
Pusilânime belo crisântemo
Seja papel higiênico do cérebro
Cair da sela
Sair da cela
Saber o que come
Caber no que some
Viajar num filme
Viver num livro
O importante é o que a caneta pensa
No Bach, Brahms e Chopin…


Vida de índio
Hoje eu acordei com o rádio-relógio tocando um tremendo rock, joguei meu edredom para o lado, calcei minhas sandálias de dedo e coloquei minha dentadura. Desliguei o ar-condicionado, puxei a cortina polietileno, abri a janela e segurei na grade para me espreguiçar. Enfim, pronto para mais um dia de batalha. Peguei minha escova anti-germe e escovei os “dentes” com creme dental com flúor.
Tomei meu desjejum composto de leite em pó, – made in Chernobil – com Nescafé e água ozonizada, num copo de plástico descartável, duas fatias de pão de forma com bastante bromato e passei uma boa margarina vegetal.
Saí e tranquei a porta com chave de duas voltas e um cadeado de segredo. Peguei minha Honda 125 e parti para a gleba nº 10.
As 8 horas comecei a arar a terra com meu Massey Ferguson. Quando deu sede, fui para a sombra de uma barraca de pára-quedas, tomei uma água mineral gasosa que estava gelando no isopor.
Quando o sol bateu forte, olhei meu relógio digital e já eram 11:30. Então resolvi almoçar. Comi um sanduíche natural de atum em lata com maionese e outro de carne de soja. Ah, tomei também um refrigerante dietético, claro que continha ciclamato.
Como o dia ainda era grande, resolvi dar uma descansada. Estiquei o esqueleto no sofá-cama, fumei um cigarro king-size de baixos teores. Estava curtindo os prazeres da selva, quando me deu saudade da velha, minha mãe.
Peguei minha esferográfica e parti para uma carta que começava assim;
Kukurucaia, love you, mãe querida…
Como estava com um pouco de dor de cabeça, tomei uma aspirina e botei o cocar na cabeça, digo, o boné da adidas na cabeça. Mais tarde, resolvi ir ter com o guru da cidade para pegar meu mapa astral, aproveitei a visita e pedi para ele colocar as cartas de tarot, para ver se aquele meu negócio ia dar uma boa bolada de US$.
Na volta liguei para o setor social e fui informado que haveria uma reunião festiva ao entardecer.
Fui para casa, tomei um bom banho com sabonete anti-alérgico e dei um trato com um shampoo 2-em-1, coloquei meu calção de nylon, passei um desodorante anti-transpirante e esfreguei um pouco de guache no corpo para me caracterizar para a festa. Aproveitei o embalo e levei minha câmera de vídeo para filmar a farra.
No caminho de volta, jantei uma pizza com bastante ketchup, requentada no forno de micro-ondas.
É! Hoje só faltou a presença da mulher e das crianças que foram passar uns dias com a sogra e aproveitaram para tomar uma vacina no hospital da cidade.
Ah! Antes de desligar a televisão com meu controle remoto e me preparar para dormir, eu queria lembrar que, aqui na aldeia, sou índio guerreiro e vivo em comunhão com a natureza humana dita civilizada…


Fortaleza
Carona ao amigo Franco
Terra do sol
Terra do amor
Amor de viver
De ser e deixar ser
Aventurar por você
Teu calor, tua brisa
Tua terra seca
De carnaúbas imponentes
D´um verde multicor
Do azul do mar que me marcou
Os olhos como um flash
Dos coqueiros de tuas praias
Fincados na areia fina e leve
Que encheu meu coração
De poesia e esperança
Esperança na tua gente
Esperança crescente para que
Você não padeça com o tempo
Tempo que vem trazido
No fundo por crescimento
Mas, não e para sustentar tua beleza
Nem para tua gente
E tão pouco, tua cultura
O tempo virá como
Os abutres para comer tua carniça
Mas, que venha tarde como a preguiça…


Hecatombe
A mente explode
Voam pensamentos por todos os lados
Explode o coração
São cacos de amor cortando as veias
Explode a caneta
São palavras caindo no papel
Explode a garganta
São vozes entrando por todos os ouvidos
Explode o destino
São atalhos por todos os lados
Explode um não à bomba
E, a bomba não explode
Explode a alegria
São risos por todos os rostos…
Anticoncepcional
Preciso de uma musa
D’uma bela de uma presa
Para brincar de vida
E manter a chama acesa
Quatro folhas me atrevo
O amor passa tangente
Viajo através da ilusão
Dependurado pingente
Catando as surpresas
Com a sorte danço
Meu coração sonâmbulo
Em sonhos balanço
Desencontro na procura
Do pensamento já caio
Vou deixando de voar
De esperar, lacaio
Estremecem horas doces
Como um poste prostrado
Sou alvo das lembranças
Estou lá, preso no passado
Jogo pérolas aos poucos
Os frutos já não saciam
O que ainda canto não vaio
Mas, as dores já mereciam
Escrevo para ninguém
À uma forma difusa
A esperança abusando
Todo esse vazio ela usa…