Prisma
A música não tem voz
A imagem não tem corpo
O vento não tem sopro
O esquilo não é como nós
A mente não pensa
O coração não ama
O querer não chama
Não há dor que vença
O tempo não existe
Num corpo nem tudo se vê
Sem luz não se pode crer
A ignorância não persiste
O efêmero nem sempre é quimera
Um blefe pode conter verdade
O passado não traz só saudade
Nem tudo que ruge é fera
Da terra nada se leva
Nem tudo que reluz é ouro
Nem tudo que guardamos é tesouro
Não é preciso viver na treva
O espaço é uma ilusão
Nem todo rei é coroado
Nem todo roto é esfarrapado
A vida etérea não é visão
Nem toda dúvida é uma certeza
Nem tudo que é belo é frágil
Nem todo que passa é ágil
Nem toda lágrima e de tristeza
Quem sente não se ilude
Quem vê cara deve ver coração
Se te derem a mão, tome benção
Nem tudo que machuca é rude
Nem tudo está coberto por um véu
O mais engraçado é o que não é triste
Se você perceber que já não existe
Pode ser que esteja indo para o céu…
Prepotência
Tinha um amor tão grande
Que não cabia no coração
Tinha um coração tão grande
Que não cabia no peito
Tinha um peito tão grande
Que não cabia no caixão
Tinha um caixão tão grande
Que não cabia no cemitério
Tinha um cemitério tão grande
Que não cabia na terra
Tinha uma terra tão grande
Que não cabia no universo
Tinha um universo tão grande
Que não cabia em si…
Gaia ciência
Trouxe sua voz pelo fio
Sua imagem pelo espaço
Explodiu Hiroshima
Implodiu o passado
Particularizou o átomo aos poucos
Levou a mentira até a lua
Fez o metal biológico
Transformou quase todas em mães de César
Virtualizou a paz
Computou binariamente sim e não
Colocou os pensamentos em órbita
Globalizou fantasias eletrônicas
Estimulou a saúde anabolizante
Provou que é de proveta
Levou a barbárie aos selvagens
Me duplicou no celulóide
Internetizou a solidão
Clonou os erros
Alimentou a fome transgênica
Fez das tripas acidulantes e corantes
Aids ficou a doença
Construiu a destruição
Jogou-nos num buraco negro
Criatividade Arteficial!

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