Se sentindo
Como se fosse um cavalo selvagem.
Como se fosse um poema inacabado.
Como se fosse um quadro de Dali.
Como se fosse uma fábula de La Fontaine.
Como se fosse gente.
Como se não existisse.
Como se estivesse numa camisa de força invisível.
Como se fosse, um touro numa arena. Sangrando e ofegante, crivado de lanças.
Como se fosse Dom Quixote, contra os moinhos imaginários e invisíveis. Caoticamente tragicômico.
Como se fosse um andarilho das galáxias…
Amor puro
Um amor sem nenhum motivo para amar que não seja o próprio amor.
Um amor mais puro, um amor de nada pelo nada, só por amor.
Um amor sem interesses ou condições.
Amor pelo amor simplesmente.
Amor de livre amar.
Sem máculas, que não carrega em si, nada que não seja o próprio amor, sem senão ou condição,
Um amor ainda, não lido, escrito ou pensado.
Um amor que ainda não tinha sido sentido ou imaginado.
No balaio dos amores, esse ainda não tinha existido.
Mais um para ser amado.
Como o amor puro é bom! Poder deixar fluir sem se preocupar, porque não tem condição para existir.
Um amor concreto e denso.
Nem platônico, nem abstrato. Não sei se vem do coração, do corpo, do pensamento ou da alma.
Mas, desconfio que exista um amor maior, que não é o que esse é.
Um amor além de simplesmente a amar.
Porque esse é apenas o amor entre um homem uma mulher.
Como é bom amar…
Vida de índio
Hoje eu acordei com o rádio-relógio tocando um tremendo rock, joguei meu edredom para o lado, calcei minhas sandálias de dedo e coloquei minha dentadura. Desliguei o ar-condicionado, puxei a cortina polietileno, abri a janela e segurei na grade para me espreguiçar. Enfim, pronto para mais um dia de batalha. Peguei minha escova anti-germe e escovei os “dentes” com creme dental com flúor.
Tomei meu desjejum composto de leite em pó, – made in Chernobil – com Nescafé e água ozonizada, num copo de plástico descartável, duas fatias de pão de forma com bastante bromato e passei uma boa margarina vegetal.
Saí e tranquei a porta com chave de duas voltas e um cadeado de segredo. Peguei minha Honda 125 e parti para a gleba nº 10.
As 8 horas comecei a arar a terra com meu Massey Ferguson. Quando deu sede, fui para a sombra de uma barraca de pára-quedas, tomei uma água mineral gasosa que estava gelando no isopor.
Quando o sol bateu forte, olhei meu relógio digital e já eram 11:30. Então resolvi almoçar. Comi um sanduíche natural de atum em lata com maionese e outro de carne de soja. Ah, tomei também um refrigerante dietético, claro que continha ciclamato.
Como o dia ainda era grande, resolvi dar uma descansada. Estiquei o esqueleto no sofá-cama, fumei um cigarro king-size de baixos teores. Estava curtindo os prazeres da selva, quando me deu saudade da velha, minha mãe.
Peguei minha esferográfica e parti para uma carta que começava assim;
Kukurucaia, love you, mãe querida…
Como estava com um pouco de dor de cabeça, tomei uma aspirina e botei o cocar na cabeça, digo, o boné da adidas na cabeça. Mais tarde, resolvi ir ter com o guru da cidade para pegar meu mapa astral, aproveitei a visita e pedi para ele colocar as cartas de tarot, para ver se aquele meu negócio ia dar uma boa bolada de US$.
Na volta liguei para o setor social e fui informado que haveria uma reunião festiva ao entardecer.
Fui para casa, tomei um bom banho com sabonete anti-alérgico e dei um trato com um shampoo 2-em-1, coloquei meu calção de nylon, passei um desodorante anti-transpirante e esfreguei um pouco de guache no corpo para me caracterizar para a festa. Aproveitei o embalo e levei minha câmera de vídeo para filmar a farra.
No caminho de volta, jantei uma pizza com bastante ketchup, requentada no forno de micro-ondas.
É! Hoje só faltou a presença da mulher e das crianças que foram passar uns dias com a sogra e aproveitaram para tomar uma vacina no hospital da cidade.
Ah! Antes de desligar a televisão com meu controle remoto e me preparar para dormir, eu queria lembrar que, aqui na aldeia, sou índio guerreiro e vivo em comunhão com a natureza humana dita civilizada…

