Um conto tolo
Hoje fui a Polícia Federal tirar meu passaporte. Para viajar não sei prá onde.
Todo poeta deve andar bem prevenido.
Isso lá no shopping Via Parque. Acabada a sabatina, lembrei que lá tem cinemas. Foi o que fiz.
Por obra do acaso. Estava passando o PEQUENO PRÍNCIPE. Escolhi a versão dublada.
Muita poesia e fantasia. Foi o passaporte para uma viagem fantástica. Pelas minhas artérias, pelas lembranças, pelas ruelas e becos do coração.
O essencial é invisível, aos olhos cativantes.
“As rosas não falam, simplesmente exalam…”
Salguei meus olhos com a pureza e a beleza.
Coisas que nem Freud explica nesse dia dos psicólogos.
O resto fica para a imaginação alheia.
Para finalizar, um delicioso sanduíche de tender com abacaxi e uma salada de batata do Cervantes.
di boa…
Vida de índio
Hoje eu acordei com o rádio-relógio tocando um tremendo rock, joguei meu edredom para o lado, calcei minhas sandálias de dedo e coloquei minha dentadura. Desliguei o ar-condicionado, puxei a cortina polietileno, abri a janela e segurei na grade para me espreguiçar. Enfim, pronto para mais um dia de batalha. Peguei minha escova anti-germe e escovei os “dentes” com creme dental com flúor.
Tomei meu desjejum composto de leite em pó, – made in Chernobil – com Nescafé e água ozonizada, num copo de plástico descartável, duas fatias de pão de forma com bastante bromato e passei uma boa margarina vegetal.
Saí e tranquei a porta com chave de duas voltas e um cadeado de segredo. Peguei minha Honda 125 e parti para a gleba nº 10.
As 8 horas comecei a arar a terra com meu Massey Ferguson. Quando deu sede, fui para a sombra de uma barraca de pára-quedas, tomei uma água mineral gasosa que estava gelando no isopor.
Quando o sol bateu forte, olhei meu relógio digital e já eram 11:30. Então resolvi almoçar. Comi um sanduíche natural de atum em lata com maionese e outro de carne de soja. Ah, tomei também um refrigerante dietético, claro que continha ciclamato.
Como o dia ainda era grande, resolvi dar uma descansada. Estiquei o esqueleto no sofá-cama, fumei um cigarro king-size de baixos teores. Estava curtindo os prazeres da selva, quando me deu saudade da velha, minha mãe.
Peguei minha esferográfica e parti para uma carta que começava assim;
Kukurucaia, love you, mãe querida…
Como estava com um pouco de dor de cabeça, tomei uma aspirina e botei o cocar na cabeça, digo, o boné da adidas na cabeça. Mais tarde, resolvi ir ter com o guru da cidade para pegar meu mapa astral, aproveitei a visita e pedi para ele colocar as cartas de tarot, para ver se aquele meu negócio ia dar uma boa bolada de US$.
Na volta liguei para o setor social e fui informado que haveria uma reunião festiva ao entardecer.
Fui para casa, tomei um bom banho com sabonete anti-alérgico e dei um trato com um shampoo 2-em-1, coloquei meu calção de nylon, passei um desodorante anti-transpirante e esfreguei um pouco de guache no corpo para me caracterizar para a festa. Aproveitei o embalo e levei minha câmera de vídeo para filmar a farra.
No caminho de volta, jantei uma pizza com bastante ketchup, requentada no forno de micro-ondas.
É! Hoje só faltou a presença da mulher e das crianças que foram passar uns dias com a sogra e aproveitaram para tomar uma vacina no hospital da cidade.
Ah! Antes de desligar a televisão com meu controle remoto e me preparar para dormir, eu queria lembrar que, aqui na aldeia, sou índio guerreiro e vivo em comunhão com a natureza humana dita civilizada…


Efeito borboleta
O amor, uma bomba subatômica de carinhos, carícias, êxtase e emoções indescritíveis, partículas em expansão que se acumulam no coração.
Uma fusão de quereres, cederes e amares.
Mas, tem o pavio da separação. Quando detona, afeta geral. Desencadeia uma destruição tremenda, uma hecatombe. O amor implode.
Você some de você em “slow-motion”.
São cacos e destroços pra todos os lados. O corpo e a alma viram um amontoado de carne e dores espalhados pelo chão.
Reconstruir tudo é um processo tenebroso e lento.
Apesar de toda superação , as sequelas são inevitáveis e nefastas.
Deixam cicatrizes que afetam toda vida na terra…

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