Dama da insônia
Em seu mar de tristezas
Onde pensava poder se afogar
Ondas quebravam nos olhos
Em forma de lágrimas
Banhando a praia da vida
Um gole engole o choro
Andava pelo quarto
Procurando pelos cantos
Da lembrança, tímida
Remexendo as gavetas
Da esperança, ínfima
Tentando encontrar
Seu amor, escasso
De repente pegou um livro
E começou a ler
Foi, como se fosse
Uma borracha, boa
Apagando aos pouquinhos
A dor da saudade…
Por que o lixeiro não passa aqui
Tem tanta coisa estragada:
Sonhos mofados,
Saudades quebradas,
Esperanças vencidas,
Futuros passados,
Felicidades prescritas
Cacos de amores,
Detritos de dores,
Cheiro de tristeza,
Chorume,
Fedeu…
Só sobra um coração, ainda na validade.
A beleza encanta, e é tudo tão lindo…
Clorofilando
Me empoemei todo,
Sai primaverando,
Flores na beleza,
Frutos no amor,
Sementes na esperança,
Folhas na cura,
Caules na firmeza,
Raízes na sabedoria,
Esverdeando tudo em diversas cores…
Plantando mudança,
Exalando perfumes,
Despoluindo narizes,
Desembaçando olhares,
Desmaterializando o concreto,
Reflorestando o asfalto,
Enterrando as dores,
Arrancando as tristezas,
Desbastando os pensamentos,
Roçando a maldade,
E, vivendo pelai.
Fotossíntese da luz divina no coração…
Quando te beijo
Meu coração vai pra boca
Pra se encontrar com o teu
Minha língua se enrosca na tua
Pra sentir o sabor da tua alma
Meu corpo treme
Perco os sentidos
Me arrepio com teu lambido
Me desfaço todo em libido…
O texto apresenta um poema de Ramires Navajo que explora a intensidade física e emocional despertada por um beijo apaixonado. Através de uma linguagem lírica, o autor descreve como o contato íntimo promove uma fusão entre as almas e uma entrega total dos sentidos. A narrativa destaca reações corporais viscerais, como tremores e arrepios, para ilustrar o poder da atração e do desejo. Essa obra utiliza o erotismo romântico para expressar a perda de controle diante de uma conexão profunda com o outro. Em última análise, os versos celebram a libido e a sensibilidade como formas de conexão humana absoluta.
Mulher
à Maria José
Mulher, teu nome é
Luz sonora, canto de fé
No céu, Maria de Nazaré
Na terra, Maria José
Quem trazes, pouco levam
Nada querem, simplesmente cevam
Quem levas, pouco trazem
Nada querem, simplesmente fazem
Brincando fiz disso rima
Não é isso uma obra-prima
Somente um vício, um verso
De um réu, digo e confesso
Uma alegria tirada do vazio
Da confusão, apenas, um fio
Quem sabe, sentimento de culpa
Ou um motivo de desculpa
Se dessa pedra verter valor
Que seu lugar não seja o andor
Basta que identifiques a flor
De um pequeno gesto de amor…
